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Empreendedorismo na saúde após a pandemia: tempo de oportunidades

Estamos passando por um momento único em nossa sociedade, momento este que é compartilhado mundialmente. Mesmo que de alguma forma bem inconsciente esperássemos pelo dia em que uma pandemia pudesse ocorrer, não imaginávamos que o processo de passagem seria tão doloroso e principalmente, tão desafiador, pois, como Richard Thaler colocou em seu magnífico livro Misbehaving, “A construção da economia comportamental: as pessoas estão dispostas a fazer previsões extremas baseadas em dados frágeis. Sempre há uma primeira vez para o caos”.

 

Mas, mesmo com todos os equívocos e interferências, a doença segue seu curso e, de maneira surpreendente no caso do Brasil, já podemos começar a sonhar com um mundo em que aprenderemos a coexistir com esse vírus, em uma trajetória que nos tornará vencedores, como sociedade.

 

O setor da saúde está em constante escrutínio atualmente, sendo que somente agora as questões econômicas estão recebendo o devido destaque. É natural, em um cenário de pânico e desconhecimento do real potencial de dano do Covid-19, que primeiro se pense em termos de esgotamento de recursos. Tal como um tsunami, apenas após a passagem da primeira onda é que podemos começar a ter a clareza necessária para raciocinarmos em termos de longo prazo.

 

Apesar de todo o discurso de iminente ruína econômica (bem mais influenciado por circunstâncias não tão dignas), podemos afirmar que, mesmo de maneira ainda incipiente, o cenário que se desenha para o futuro é de esperança. Há vida econômica pós Covid-19.

 

Para quem deseja empreender em saúde, ou mesmo para os acostumados com os desafios do setor, temos todo um arsenal de oportunidades.

 

O isolamento social, ainda que forçado e de várias maneiras inadequado em sua estruturação, trouxe inúmeros recursos e plataformas que propiciam um clima favorável ao investimento em novos negócios. Há que se destacar o uso intensivo da tecnologia de suporte para reuniões e as já famosas lives, o uso intensivo do home office, o compartilhamento de dados pelos usuários e fornecedores de serviços e novos modelos de faturamento e uso racional de recursos, demonstram que o brasileiro poderá ter um protagonismo socioeconômico importante em um futuro próximo.

 

No nosso setor saúde, a tão aguardada liberação do uso da telemedicina (que sabemos ter o potencial para desafogar o sistema de saúde e otimizar recursos), ainda que se admitindo a necessidade de uma revisão em seus critérios para atingir todo seu potencial como adjuvante no tratamento de excelência ao paciente, se torna uma inspiração para o desenvolvimento de toda uma tecnologia de suporte.

 

Toda a demanda reprimida de procedimentos cirúrgicos, causada pela suspensão de cirurgias eletivas, pode se tornar a salvação de instituições que estão atravessando no momento uma queda expressiva na ocupação de leitos e rotatividade de pacientes.

 

A possibilidade de aprimorarmos a educação on-line (EAD), gera toda uma gama de oportunidades na educação em saúde, inclusive para gestores do setor.

 

É o momento ideal para o desenvolvimento de melhorias na atenção básica, com destaque para o enfoque na experiência do paciente e nos planos de cuidado a longo prazo, uso de acessórios e aplicativos, com enfoque na avaliação multidisciplinar e integração de resultados. Mais do que nunca, precisamos elaborar a base para modelos de pagamento realmente efetivos, com base no valor em saúde, nos protegendo de momentos como o que estamos vivendo, já pensando em toda uma visão estratégica a médio e longo prazo.

 

Resumindo e utilizando um antigo clichê (ainda que com certa ironia), basta apenas uma mudança de foco para descobrirmos, que é justamente em épocas de crise, que conseguimos ter o material disponível para a inovação. Devemos aproveitar este tempo que nos foi ofertado para nos organizarmos e assim, retirarmos o véu que nos impede de enxergamos todo o admirável mundo de oportunidades que está bem à nossa frente.

 

Texto por Dra. Stefânea Campanha – Médica e gestora de organizações de saúde, MBA Executivo em Saúde pela FGV, Mestrado em Gestão de Serviços em Saúde pelo ISCTE (Universidade de Lisboa). Diretora de conteúdo da INMEDIC Brasil, e coordenadora do Núcleo Saúde IBS.

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